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O yoga para crianças num mundo viciado em dopamina

Reflexões depois de ler Nação Dopamina, de Dr.ª Anna Lembke


Há dias em que as crianças chegam à aula como se alguém tivesse carregado no botão do “acelerar”. Falam todas ao mesmo tempo, mudam de postura a meio da postura, perguntam “o que vem a seguir?” antes de terem chegado onde estão.


Se já sentiste isso, não estás sozinha. E não é falta de atenção, nem excesso de energia mal canalizada. É o mundo em que estamos a viver.


Depois de ler Nação Dopamina, fiquei com uma sensação estranha: por um lado, preocupação; por outro, uma certeza tranquila: o yoga para crianças nunca foi tão necessário como agora.


Vivemos rodeados de estímulos. Ecrãs, sons, cores, recompensas rápidas, novidades constantes. O cérebro habitua-se a esse ritmo e começa a pedi-lo cada vez mais. O problema é que, quanto mais recebe, menos satisfeito fica. O resultado? Mais agitação, menos tolerância à frustração, mais dificuldade em parar.


E é aqui que entra o yoga.


Muitas vezes sentimos pressão para tornar cada aula mais criativa, mais divertida, mais diferente da anterior. Um exercício novo, uma história nova, uma música nova. Mas o livro lembra-nos de algo importante: mais estímulo não significa mais bem-estar.


Às vezes, aquilo que realmente regula uma criança é saber exatamente o que vai acontecer. Entrar na sala e reconhecer o ritual. Começar sempre da mesma forma. Repetir posturas conhecidas. Sentir o corpo a assentar num ritmo previsível. A repetição, tão desvalorizada, pode ser profundamente calmante.


E depois há o tédio. Essa palavra que nos deixa logo desconfortáveis. Quando uma criança fica quieta demais. Quando o silêncio se alonga. Quando parece que “não está a acontecer nada”.


Mas está.


Num mundo que não deixa espaço vazio, o tédio torna-se um portal. É nele que o sistema nervoso respira. É nele que o corpo integra. No yoga, esse espaço pode surgir numa postura mantida mais um pouco, numa respiração sentida com atenção, num relaxamento sem música, num final sem pressa de sair.


Não é falha. É medicina.


O livro também fala muito sobre comportamento e como muitas vezes confundimos estados fisiológicos com falta de vontade. Uma criança desregulada não precisa primeiro de explicações. Precisa de sentir o corpo. Precisa de movimento consciente, de pressão, de pausa. O yoga não vem depois do “bom comportamento”. O yoga é o caminho para ele.


E os limites? Num mundo que associa limites a castigo, é quase revolucionário dizer isto: limites claros são uma forma de amor. Uma aula com estrutura, regras simples e rituais consistentes não prende a criança, dá-lhe segurança. Dá-lhe chão.


Há também algo bonito no esforço. Nas posturas que exigem foco, nos equilíbrios que tremem, no desafio seguido de descanso. O corpo aprende uma lição que vai muito além do tapete: posso esforçar-me e depois parar. Posso sentir intensidade e depois voltar ao centro.


E depois estás tu.


Mesmo quando não dizes nada, estás a ensinar. As crianças sentem se estás apressada, se estás a tentar preencher cada silêncio, se te permites parar com elas. A tua presença regulada é parte da aula. Talvez uma das partes mais importantes.


No meio de tudo isto, ficou-me uma ideia muito clara: o yoga para crianças é um ato de resistência suave. Enquanto o mundo acelera, tu ofereces pausa. Enquanto tudo pede mais, tu ofereces menos. Enquanto se foge do silêncio, tu ficas.


Não estás a preparar crianças para aguentarem um mundo cada vez mais estimulante. Estás a ajudá-las a criar um centro interno ao qual podem regressar.


E isso é imenso.


Talvez, no fim do dia, a pergunta não seja “a aula foi suficientemente divertida?”, mas sim:


Que espaço ofereci hoje que talvez não exista em mais lado nenhum?


Se sentires que a aula foi simples demais, silenciosa demais, repetitiva demais… talvez tenha sido exatamente o que elas precisavam.


E talvez tu também 🤍

 
 
 

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